Competências socioemocionais entram no currículo escolar obrigatório

Não é novidade que competências socioemocionais foram incluídas na Base Nacional Comum Curricular e que essas competências são importantíssimas a serem desenvolvidas o quanto antes. Não que isso já não fosse provocado pelos professores, por bons professores, pelo menos, mas agora é obrigatória a inserção no currículo escolar. Todas as matérias terão um despertar de habilidades socioemocionais nos três níveis, infantil, fundamental e médio.

Não podemos estar com nossos filhos o tempo todo e a escola pode e deve colaborar com a introdução de temas sensíveis à coletividade como autonomia, responsabilidade, empatia, princípios éticos entre outros. Isso não é, de forma nenhuma, passar a responsabilidade para a instituição e sim, ter um reforço positivo de assuntos que entendemos importantes.

Além de serem absolutamente necessárias para a vida em sociedade as habilidades socioemocionais nunca foram tão requisitadas no ambiente de trabalho, e essa já é uma exigência mercadológica, e com certeza, será fundamental no futuro.

A educação emocional é a que desenvolve competências emocionais que contribuam para um aumento de bem-estar social e emocional. São as habilidades de que necessitamos para compreender, expressar e controlar de forma apropriada os fenômenos emocionais do dia a dia (Bisquerra y Pérez-Escoda, 2007, p. 8). Tudo é emocional, não é mesmo? E para o uso racional otimizado, temos que ter o controle emocional de nossos atos, reações e relacionamentos com o mundo.

Convencemos pela emoção e o uso inteligente dela, pode nos impulsionar de forma impressionante para a vida, então, quanto antes aprendermos a usá-la, melhor.

Pesquisadores como James Heckman (CUNHA; HECKMAN, 2011; HECKMAN, 2006, 2008), defendem a eficiência econômica da Educação Infantil e a importância de programas de educação da primeira infância como solução para os diversos problemas de ordem econômica, política e social que afetam os países em desenvolvimento.

A emoção interferindo na economia. Vejamos que interessante as habilidades que se pretende provocar no novo componente curricular:

OBJETIVO DE COMPETÊNCIAS GERAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

  1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
  2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
  3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
  4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
  5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
  6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
  8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.
  9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
  10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

O modelo BIG FIVE, já desenvolvido há alguns anos e usado pelo Instituto Ayrton Senna, também trabalha habilidades socioemocionais e usa traços da personalidade para potencializar pessoas e organizações. Isto é, usa as características individuais, forças pessoais como forma de empoderamento e, a partir disso, o bom uso em grupo, quer seja em família, na escola ou em grupos de trabalho. Afinal, somos seres relacionais e tudo é relacionamento.

Este modelo define a personalidade humana como uma rede hierárquica de traços, compreendidos teoricamente como predisposições comportamentais de respostas às situações da vida (Trentini et al., 2009). A boa notícia é que podemos nos treinar para reagir da melhor forma possível nas mais diversas situações.

Estudo da universidade norte-americana de Columbia aponta que para cada dólar investido no desenvolvimento da inteligência socioemocional de uma criança, 11 dólares são devolvidos à sociedade, conforme Tônia Casarin, autora do livro “Tenho monstros na barriga”.

O mercado hoje obriga. Não basta mais sair com alta qualificação profissional mas sem capacidade relacional, sem saber cooperar positivamente, atuar sob controle emocional ou sob senso ético e moral. Nunca foi tão urgente pensar nisso e a obrigatoriedade curricular é uma oportunidade para pensarmos no enriquecimento humano desde os primeiros anos escolares.

CUNHA, F.; HECKMAN, J. J. Capital humano. In: ARAÚJO, A. (Coord.). Aprendizagem infantil: uma abordagem da neurociência, economia e psicologia cognitiva. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências, 2011. p. 9-34.
FRUYT, F. de. Personalização. Entrevista publicada em 9 dez. 2014. Disponível em: . Acesso em: jan. 2015.
HECKMAN, J. J. O bom de educar desde cedo. Educar para crescer, 5 abr. 2015. Entrevista concedida a Monica Weinberg. Disponível em: Acesso em: jul. 2015

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